Sound Classic: "Born Again" - Black Sabbath

Toda banda tem um momento peculiar na história para chamar de seu. O Black Sabbath, considerado o pai desse negócio conhecido como heavy metal, vivenciou esse período singular no início da década de 1980. Após a saída conturbada do vocalista Ronnie James Dio e do baterista Vinny Appice, devido a divergências ocorridas durante a mixagem do álbum ao vivo Live Evil, o Sabbath se viu em uma encruzilhada crucial.

A banda havia tido uma sorte incrível ao recrutar Dio como substituto de Ozzy Osbourne, e conforme reza a lenda, o raio não atinge duas vezes o mesmo lugar. Portanto, Tony Iommi e Geezer Butler, os únicos membros remanescentes da formação original, precisavam encontrar novos (ou velhos) parceiros. A primeira questão a ser resolvida foi a da bateria. A solução veio quando Bill Ward, que havia deixado a banda para escapar dos perigos noturnos, foi convidado a retornar - e prontamente aceitou o convite.

Já para o posto de vocalista, corria na boca miúda que David Coverdale (ex-Deep Purle e líder do Whitesnake) era o favorito para assumir o microfone. No entanto, quem assumiu a bronca foi ninguém menos que Ian Gillan, outro ex membro do Deep Purple que estava em processo de abandonar a carreira solo de olho numa oportunidade de volta com a ex (banda). A ideia de juntar Gillan com o Sabbath partiu do empresário Don Arden, e foi concretizada após uma animada confraternização regada a álcool entre o vocalista, Iommi e Butler.

Em 6 de abril de 1983, a revitalizada formação do Black Sabbath foi anunciada em uma coletiva de imprensa no Le Beat Route Club, em Londres. A mídia tratou logo de apelidar aquela inusitada reunião de Deep Sabbath. Com um novo ânimo, a banda entrou no Manor Studio com o produtor Robin Black e deu origem a uma das obras mais estranhas da sua discografia: o álbum Born Again

Embora o álbum tenha conquistado a quarta posição nas paradas britânicas logo na semana de seu lançamento - um feito que o mega clássico Sabbath Bloody Sabbath havia alcançado uma década antes - Born Again divide opiniões. Apesar de estar repleto de momentos brilhantes, nos quais Iommi distribui riffs impecáveis, a sonoridade crua, áspera e abafada atraiu críticas direcionadas à produção. A causa exata dessa "imperfeição" sonora permanece incerta, ainda que o guitarrista sugira que algum contratempo tenha ocorrido no processo que envolveu a masterização, mixagem e prensagem do LP.

O recém-chegado Ian Gillan não poupou palavras ao falar sobre o disco. Além de criticar abertamente a sonoridade do álbum, o vocalista não escondeu a repulsa com a capa de Born Again. Em suas próprias palavras, registradas em sua autobiografia: "Eu vi a capa e vomitei, depois ouvi o disco e vomitei de novo". Curiosamente, é a capa que se destaca como um ponto central nesse período na história do Black Sabbath. Com a palavra, o designer Steve 'Krusher' Joule

A capa do bebê era na verdade de uma revista de 1968 chamada Mind Alive. Tirei algumas fotocópias em preto e branco da imagem que expus em excesso, enfiei os chifres, pregos e presas na arte, usei a combinação de cores mais ultrajante que o ácido poderia comprar, desmanchei um pouco do tipo de letra inglesa antiga e recostei-me, sacudi minha cabeça e caí na risada

Em meio a tanta esquisitice, a era Deep Sabbath pode ser considerada um sucesso. Apesar da qualidade sonora duvidosa e da capa igualmente controversa, Born Again alcançou significativas vendas, impulsionando a banda numa turnê global para promover o trabalho. Fato curioso é que Bill Ward, ainda receoso dos perigos noturnos que uma turnê pelos Estados Unidos poderia trazer, optou por não participar das viagens, sendo prontamente substituído por Bev Bevan, do ELO.

Contudo, essa fase não durou mais de um ano. Era evidente para todos que Gillan estava consideravelmente mais inclinado a um retorno ao Deep Purple do que a um comprometimento de longo prazo com o Black Sabbath. Esse interesse foi concretizado com a reunião conhecida como MK2, culminando no estrondoso sucesso alcançado pelo Purple em 1984 com o lançamento de Perfect Strangers. Por sua vez, o Sabbath também reuniu a formação original para uma apresentação no Live Aid de 1985. E parou por aí. Ozzy vivia um bom momento na carreira solo e não tinha interesse em reunir-se em definitivo com a ex-banda. 

Sem vocalista, sem baterista e até mesmo baixista - Butler pulou fora do barco no meio de tanta incerteza sobre o futuro do Sabbath -, Iommi teve que juntar os cacos e recomeçar praticamente do zero. E foi com a chegada de outro ex-Deep Purple que o guitarrista começou a reformular o Black Sabbath, mas aí é papo para outra história...

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Mesmo com tantas controvérsias, Born Again é um disco que reserva bons momentos. Faixas como Trashed, Disturbing The Priest, Zero The Hero, Digital Bitch, a faixa título e Hot Line são fantásticas e apresentam um Black Sabbath na mais pura essência: instrumental pesado, vocais assustadores e toda aquela áurea macabra característica na sonoridade da banda. 

E talvez seja exatamente por isso que, durante uma entrevista à Circus Magazine em 1984, Ozzy afirmou que Born Again era o melhor trabalho do Black Sabbath desde o fim da formação original. E se o Madman falou...

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